Bases para o Diálogo da Física Quântica com as Filosofias Espiritualistas e a Psicologia Transpessoal

1.     Introdução

Este texto tem por objetivo apresentar algumas das contribuições da física quântica que se constituem em portas importantes para o diálogo entre, de um lado a ciência, do outro a psicologia transpessoal e as filosofias espiritualistas.

É baseado no trabalho de Amit Goswami*, físico teórico e professor da Universidade de Oregon-USA, atualmente pesquisador da Noethic Society-USA. 

Em dezembro de 1900, data considerada como o marco da mutação da Física Newtoniana para a Física Quântica, Marx Planck apresentou, num Congresso de Física, os dados de sua experiência com corpos negros irradiados que emitiam calor em pequenos pacotes e não de maneira contínua como era de se esperar pelas leis de Newton. Planck chamou cada um desses pacotinhos de calor de um “quantum” de energia, ou seja, uma quantidade indissociável. Plank, de formação newtoniana, não encontrou explicação para o resultado de sua experiência e apelou para os colegas, a fim de interpretá-lo.

Esse foi o ponto de partida da Física Quântica, que viria a manter uma influencia profunda sobre a visão de mundo emergente no decorrer do século XX.

Sua influência foi tal que muitas outras áreas de conhecimento de práticas humanas passaram a utilizar-se do qualificativo “quanta”. Vemos a todo o momento, expressões tais como; medicina quântica, cura quântica, Ser quântico... A física quântica está repleta de termos que passaram a serem usados na vida diária. A teoria de incerteza dos corpos, de Heizenberg, invadiu a linguagem de áreas de conhecimento como da sociologia e da psicologia, a ideia de salto quântico passou a ser utilizado para expressar uma mudança rápida e significativa na vida de uma pessoa em algum processo qualquer. O termo popularizou-se através de artigos em revistas e mesmo jornais, de tal forma que foi incluído no vocabulário das pessoas, muitas vezes sem levar em conta seu verdadeiro significado; por detrás do modismo, porém, existem conteúdos capazes de revolucionar as crenças, valores e hábitos mentais de todas as sociedades humanas no fim do século e nesta 1ª década do século.

No nosso cotidiano interpretamos o mundo pela visão da física clássica e ela nos parece ser suficiente: a realidade visível se apresenta como estruturada, suficientemente estável, a maioria dos acontecimentos é previsível, a racionalidade é a qualidade da mente que mais utilizamos para o acesso ao conhecimento técnico - científico e para a vida social, especialmente no ocidente.

A estranheza com a física quântica é percebida inclusive por seus criadores, como o físico  Niels Bohr, quando disse certa vez: “os que não ficam chocados quando tomam conhecimento da teoria quântica não podem, possivelmente, tê-la compreendido”[1].

Para podermos entender com clareza a inovação trazida pela física quântica, é essencial antes explicitar com mais precisão as convicções crenças e valores da física clássica, liderada por luminares como Newton, Maxwell e tantos outros e que se estenderam até mesmo a visões subjacentes à teoria da relatividade de Einstein:

  • Objetividade e determinismo: obedecendo às leis da física, as interações  entre objetos causam todos os movimentos desses objetos; se conhecermos as condições iniciais em que se encontram os objetos (o que é essencial para defini-lo), podemos determinar seu movimento em qualquer instante de tempo;
  • Continuidade: todo movimento é contínuo no tempo, portanto previsível; as incertezas eventualmente existentes serão superáveis com o progresso da ciência;
  • Causalidade: existe sempre uma relação de causa e efeito entre os fenômenos de âmbito científico, obedecem a um processo de causação ascendente, ou seja, a relação de causalidade se dá das partes para o todo, do nível mais elementar para o mais complexo;
  • Localidade: a relação de causa e efeito funciona mediante a interação local, o que significa que ocorre por intermediação material ou eletromagnética entre o agente causal e o objeto sobre o qual exerce o efeito e, ainda mais, que os sinais mediadores atravessam o espaço em um intervalo finito de tempo;
  • Monismo materialista (filosofia implícita nas hipóteses básicas da física clássica): todo e qualquer fenômeno subjetivo, tal como os fenômenos do âmbito interno da mente humana e a ideia de autoconsciência, em si mesma, são derivados da matéria (o cérebro) e, como tal, não tem nenhuma eficácia como fator causal. Esta afirmação é decorrência natural das anteriores e consiste no realismo científico, para o qual consciência no homem, bem como Consciência Universal ou Deus são hipóteses desnecessárias e estranhas ao âmbito da realidade científica; admite que todos os fenômenos de causa e efeito são sempre internos à realidade considerada cientifica.

Mesmo as ciências humanas, a exemplo da psicologia, sustentam seu status científico pela aceitação implícita de que os processos da mente são gerados pelo cérebro, sejam eles racionais, intuitivos como emocionais;  a hipótese da existência de fenômeno causal de natureza espiritual é excluída como inexistente nos processos da mente humana.

 Passamos a apresentar sinteticamente as convicções da física quântica importante para o novo diálogo com a psicologia transpessoal e as filosofias espiritualistas: 

  • A realidade subatômica é dual, é onda de possibilidade e partícula, é virtual e imanente simultaneamente, o ser e o não ser coexistem dinâmica e permanentemente.
  • A descontinuidade, a incerteza e a imprevisibilidade são intrínsecas ao comportamento da realidade;
  • A impossibilidade do acesso do homem ao conhecimento pleno e inequívoco da realidade pela ciência é intrínseca, insuperável;
  • O conhecimento científico é influenciado pela subjetividade do observador na percepção da realidade, tornando a mente do observador co criadora da realidade;
  • Existe interinfluência mútua entre observador e objeto observado e entre quaisquer objetos do mundo sub atômico, todos os componentes do universo são elementos de uma única realidade dita entrelaçada, interdependente, formando um todo dinâmico e indivisível;
  • O modelo holográfico de visão do universo, defendido por físicos quânticos, leva a valorizar a abordagem do todo para estudar seus componentes, cada um dos seus elementos contém o todo, esse modelo leva o pesquisador à percepção do sincronismo entre específicos eventos e o todo;
  • Físicos quânticos reconheceram a comunicação direta e instantânea entre mentes, sem a interveniência de causas aceitas como cientificas. *
  • A física quântica constatou a existência de processo de causalidade descendente, em contraposição com a hipótese adotada pela física clássica, da causação exclusivamente ascendente, inclusive por ação de um agente causal externo ao âmbito da realidade de um experimento científico, tal como pela presença consciente do observador;
  • Os físicos de opção filosófica monista idealista admitem que o fator causal da causação descendente não seja apenas a mente do homem, mas a Consciência no homem, atuando como representante do fator causal último que é a Consciência Universal.
  • Ao invés da matéria ser considerada a realidade primária ou última, a  Consciência Transcendente e Universal é a base de todo o ser, o cérebro e a mente são derivados dela.

A Consciência Universal é autorreferente, criadora, harmonizadora, unificadora da realidade.

  • A evolução do ser humano consiste no desenvolvimento de sua capacidade de se tornar um canal aberto à Consciência Universal, ampliando assim a Consciência Individual. Tal evolução lhe permite tornar-se co-criador da harmonia universal. 

Passamos a apresentar o conteúdo e a gênese destas convicções dos físicos quânticos, a mostrar as contribuições para a visão do homem ocidental e ainda a indicar como contribuem para o diálogo com filosofias espiritualistas e com psicologias transpessoais.

Aos leitores que desejarem maior detalhamento na exposição dos experimentos científicos deste capítulo, das teses dos cientistas e de suas controvérsias, aconselhamos a recorrer à bibliografia citada ao final do capítulo e a outras correlatas. 

1.     Introdução

Este texto tem por objetivo apresentar algumas das contribuições da física quântica que se constituem em portas importantes para o diálogo entre, de um lado a ciência, do outro a psicologia transpessoal e as filosofias espiritualistas.

É baseado no trabalho de Amit Goswami*, físico teórico e professor da Universidade de Oregon-USA, atualmente pesquisador da Noethic Society-USA. 

Em dezembro de 1900, data considerada como o marco da mutação da Física Newtoniana para a Física Quântica, Marx Planck apresentou, num Congresso de Física, os dados de sua experiência com corpos negros irradiados que emitiam calor em pequenos pacotes e não de maneira contínua como era de se esperar pelas leis de Newton. Planck chamou cada um desses pacotinhos de calor de um “quantum” de energia, ou seja, uma quantidade indissociável. Plank, de formação newtoniana, não encontrou explicação para o resultado de sua experiência e apelou para os colegas, a fim de interpretá-lo.

Esse foi o ponto de partida da Física Quântica, que viria a manter uma influencia profunda sobre a visão de mundo emergente no decorrer do século XX.

Sua influência foi tal que muitas outras áreas de conhecimento de práticas humanas passaram a utilizar-se do qualificativo “quanta”. Vemos a todo o momento, expressões tais como; medicina quântica, cura quântica, Ser quântico... A física quântica está repleta de termos que passaram a serem usados na vida diária. A teoria de incerteza dos corpos, de Heizenberg, invadiu a linguagem de áreas de conhecimento como da sociologia e da psicologia, a ideia de salto quântico passou a ser utilizado para expressar uma mudança rápida e significativa na vida de uma pessoa em algum processo qualquer. O termo popularizou-se através de artigos em revistas e mesmo jornais, de tal forma que foi incluído no vocabulário das pessoas, muitas vezes sem levar em conta seu verdadeiro significado; por detrás do modismo, porém, existem conteúdos capazes de revolucionar as crenças, valores e hábitos mentais de todas as sociedades humanas no fim do século e nesta 1ª década do século.

No nosso cotidiano interpretamos o mundo pela visão da física clássica e ela nos parece ser suficiente: a realidade visível se apresenta como estruturada, suficientemente estável, a maioria dos acontecimentos é previsível, a racionalidade é a qualidade da mente que mais utilizamos para o acesso ao conhecimento técnico - científico e para a vida social, especialmente no ocidente.

A estranheza com a física quântica é percebida inclusive por seus criadores, como o físico  Niels Bohr, quando disse certa vez: “os que não ficam chocados quando tomam conhecimento da teoria quântica não podem, possivelmente, tê-la compreendido”[1].

Para podermos entender com clareza a inovação trazida pela física quântica, é essencial antes explicitar com mais precisão as convicções crenças e valores da física clássica, liderada por luminares como Newton, Maxwell e tantos outros e que se estenderam até mesmo a visões subjacentes à teoria da relatividade de Einstein:

  • Objetividade e determinismo: obedecendo às leis da física, as interações  entre objetos causam todos os movimentos desses objetos; se conhecermos as condições iniciais em que se encontram os objetos (o que é essencial para defini-lo), podemos determinar seu movimento em qualquer instante de tempo;
  • Continuidade: todo movimento é contínuo no tempo, portanto previsível; as incertezas eventualmente existentes serão superáveis com o progresso da ciência;
  • Causalidade: existe sempre uma relação de causa e efeito entre os fenômenos de âmbito científico, obedecem a um processo de causação ascendente, ou seja, a relação de causalidade se dá das partes para o todo, do nível mais elementar para o mais complexo;
  • Localidade: a relação de causa e efeito funciona mediante a interação local, o que significa que ocorre por intermediação material ou eletromagnética entre o agente causal e o objeto sobre o qual exerce o efeito e, ainda mais, que os sinais mediadores atravessam o espaço em um intervalo finito de tempo;
  • Monismo materialista (filosofia implícita nas hipóteses básicas da física clássica): todo e qualquer fenômeno subjetivo, tal como os fenômenos do âmbito interno da mente humana e a ideia de autoconsciência, em si mesma, são derivados da matéria (o cérebro) e, como tal, não tem nenhuma eficácia como fator causal. Esta afirmação é decorrência natural das anteriores e consiste no realismo científico, para o qual consciência no homem, bem como Consciência Universal ou Deus são hipóteses desnecessárias e estranhas ao âmbito da realidade científica; admite que todos os fenômenos de causa e efeito são sempre internos à realidade considerada cientifica.

Mesmo as ciências humanas, a exemplo da psicologia, sustentam seu status científico pela aceitação implícita de que os processos da mente são gerados pelo cérebro, sejam eles racionais, intuitivos como emocionais;  a hipótese da existência de fenômeno causal de natureza espiritual é excluída como inexistente nos processos da mente humana.

 Passamos a apresentar sinteticamente as convicções da física quântica importante para o novo diálogo com a psicologia transpessoal e as filosofias espiritualistas: 

  • A realidade subatômica é dual, é onda de possibilidade e partícula, é virtual e imanente simultaneamente, o ser e o não ser coexistem dinâmica e permanentemente.
  • A descontinuidade, a incerteza e a imprevisibilidade são intrínsecas ao comportamento da realidade;
  • A impossibilidade do acesso do homem ao conhecimento pleno e inequívoco da realidade pela ciência é intrínseca, insuperável;
  • O conhecimento científico é influenciado pela subjetividade do observador na percepção da realidade, tornando a mente do observador co criadora da realidade;
  • Existe interinfluência mútua entre observador e objeto observado e entre quaisquer objetos do mundo sub atômico, todos os componentes do universo são elementos de uma única realidade dita entrelaçada, interdependente, formando um todo dinâmico e indivisível;
  • O modelo holográfico de visão do universo, defendido por físicos quânticos, leva a valorizar a abordagem do todo para estudar seus componentes, cada um dos seus elementos contém o todo, esse modelo leva o pesquisador à percepção do sincronismo entre específicos eventos e o todo;
  • Físicos quânticos reconheceram a comunicação direta e instantânea entre mentes, sem a interveniência de causas aceitas como cientificas. *
  • A física quântica constatou a existência de processo de causalidade descendente, em contraposição com a hipótese adotada pela física clássica, da causação exclusivamente ascendente, inclusive por ação de um agente causal externo ao âmbito da realidade de um experimento científico, tal como pela presença consciente do observador;
  • Os físicos de opção filosófica monista idealista admitem que o fator causal da causação descendente não seja apenas a mente do homem, mas a Consciência no homem, atuando como representante do fator causal último que é a Consciência Universal.
  • Ao invés da matéria ser considerada a realidade primária ou última, a  Consciência Transcendente e Universal é a base de todo o ser, o cérebro e a mente são derivados dela.

A Consciência Universal é autorreferente, criadora, harmonizadora, unificadora da realidade.

  • A evolução do ser humano consiste no desenvolvimento de sua capacidade de se tornar um canal aberto à Consciência Universal, ampliando assim a Consciência Individual. Tal evolução lhe permite tornar-se co-criador da harmonia universal. 

Passamos a apresentar o conteúdo e a gênese destas convicções dos físicos quânticos, a mostrar as contribuições para a visão do homem ocidental e ainda a indicar como contribuem para o diálogo com filosofias espiritualistas e com psicologias transpessoais.

Aos leitores que desejarem maior detalhamento na exposição dos experimentos científicos deste capítulo, das teses dos cientistas e de suas controvérsias, aconselhamos a recorrer à bibliografia citada ao final do capítulo e a outras correlatas. 

A Teoria da Incerteza

2. A Teoria da Incerteza

O salto quântico

Observaram os físicos que um elétron, sob a forma de partícula, ao girar em torno do núcleo do átomo, passa instantaneamente de uma órbita à outra quando ganha ou perde energia. O fato contradiz a lei definida por Einstein, pela a qual a velocidade máxima do deslocamento dos corpos é a da luz.

A interpretação dos físicos foi a de que o elétron, ao trocar de órbita, não se comporta como partícula, mas como onda de probabilidades de existir em dado instante, num determinado ponto do espaço ou numa determinada órbita.

Note-se que, na condição de onda de probabilidades, o elétron pode estar presente em uma ou mais órbitas simultaneamente.

O fenômeno do deslocamento instantâneo do elétron foi chamado de “salto quântico, o uso do conceito de “salto” se deve a que o elétron não percorre fisicamente o intervalo entre órbitas. Ao reaparecer como partícula os físicos dizem que houve um colapso” do elétron*. 

O fenômeno indica a condição onda-partícula do objeto quântico, a descontinuidade e a imprevisibilidade do comportamento do elétron. A natureza dos entes sub-atômicos é assim reconhecida como dual, simultaneamente onda e partícula: 

Desde as primeiras décadas deste século constatou-se que as partículas sub atômicas, a exemplo de elétrons e fótons, em certas experiências obedeciam às leis do movimento, da física clássica se comportando como uma partícula, como no experimento do efeito foto elétrico, outras vezes apresentam comportamento típico dos fenômenos ondulatórios, como em experiências de difração, o que levou à conclusão de que o elétron se apresenta às vezes como onda e outras como partícula, segundo o modo de observação. 

O conhecimento da realidade pela ciência é intrinsecamente incerto. Heisenberg, cientista expoente da formulação da teoria quântica, disse que “o que observamos não é a natureza em si mesma, mas é esta enquanto exposta o nosso modo de observá-la.”[2]

Em nível sub-atômico, a teoria da incerteza mostrou que quanto mais precisamente conhecemos um aspecto da realidade, menos podemos conhecer de outro igualmente essencial.

Max Born outro físico dos que conceberam a física quântica, constatou que sempre que um foco de luz é dirigido a uma partícula sub-atômica, que passou a ser denominada objeto quântico, perde-se a possibilidade de, naquele instante, conhecer também sua velocidade e o seu momentum (dado pelo produto da velocidade com a massa do objeto); concluiu que não é possível conhecer o conjunto completo de características necessárias para a plena definição do objeto quântico por suas características essenciais; em decorrência não é possível a previsão do seu comportamento.

Neils Bohr, físico quântico, demonstrou que natureza dual da onda de possibilidades-partícula, é de  complementaridade, é inseparável, e que é impossível detectar simultaneamente estas duas formas de ser.

Notemos que as ideias até aqui expostas já contrariam profundamente a visão da física newtoniana; negam, por  exemplo, a continuidade dos fenômenos, a previsibilidade e a objetividade do conhecimento científico.

A próxima frase permite notar como tinha razão o físico Niels Bohr sobre o choque das descobertas da física  com nossas convicções mais arraigadas.

As ondas referidas como base da realidade sub-atômica são ondas de probabilidades de existir, são apenas tendências no espaço-tempo, realidades virtuais. Assim sendo, a realidade quântica é dual, virtual e material simultaneamente, é o ser e o não ser coexistindo dinâmica e permanentemente.

Uma das inferências que tem sido feitas a partir da constatação do salto quântico é de que ele caracteriza não só a incerteza, mas também a oportunidade, dando espaço para a admissão de que no comportamento da natureza ocorram atos criativos; mais adiante neste texto se verá que físicos quânticos passaram a admitir a ocorrência, inclusive, de atos criativos por interferência da mente humana e até mesmo de fatores que transcendem a mente humana. 

O Observador e o Objeto Observado

3. O Observador e o Objeto Observado 

O notável físico John Von Neumann, provou que o ponto crítico da transição onda – partícula não se encontra dentro do aparelho de medida e só pode estar em etapa posterior, que ocorre na decodificação visual do observador. 

Ao nível macroscópico pode-se fazer uma analogia com a percepção humana de uma imagem de televisão: ondas eletromagnéticas portadoras das imagens fluem livremente no ar, são sintonizadas por um televisor e o telespectador as percebe pelos sentidos da visão e audição, o cérebro registra a informação e a mente a decodifica, portanto a realidade final dependeu do observador.

O evento citado como constatação do papel decisivo do observador no resultado de um experimento científico é referido como o da fenda dupla.[3]  

Um feixe de elétrons foi emitido por uma fonte luminosa e atravessou simultaneamente dois orifícios indo sensibilizar uma tela fluorescente adiante. Constatou-se pelo espectro registrado na tela que, na ausência de um observador, os elétrons do feixe apresentaram padrão de interferência próprio das ondas luminosas que atravessaram os orifícios.

Sempre que o observador esteve presente, porém, os elétrons se comportaram como partículas impressas na mesma tela; a atenção focada do observador provocou o colapso (termo usado pelos físicos) das ondas de probabilidades em partícula.

Sobre este experimento cabe citar ainda outras formulações importantes, corroboradas e complementadas por outros experimentos: um objeto quântico só pode ser conhecido em termos relativos aos instrumentos de medição e ao observador e, ainda mais, inexiste independência entre o observador e o objeto observado, ambos influenciam-se mutuamente, participam todos de um “sistema entrelaçado”, a realidade é sempre interdependente.[4]   

David Bohn, físico colaborador de Einstein, considerou ser melhor “virar a física de cabeça para baixo; ao invés de começar por partes discretas, até as mínimas, como átomos e partículas elementares, e mostrar como elas se relacionam e funcionam junta, deveríamos começar pelo todo”.[5]    

Admite que as unidades discretas do universo estão ligadas intimamente a um nível profundo, formam um todo indivisível. Ondas de probabilidades formam uma rede cósmica de frequência aonde existe uma ordem, uma estrutura dinâmica implícita, não detectável por nosso modo normal de perceber a realidade.[6]  

Muitos físicos quânticos passaram a admitir que a realidade se comporta segundo um modelo holográfico, cujas implicações veremos a seguir. 

Num filme holográfico a distribuição da informação permeia todo o sistema, de tal forma que cada parte contém a informação de todo; se ampliarmos uma pequena parte de um corpo registrado num filme holográfico, ao invés de encontrarmos a foto daquela parte expandida encontramos a reprodução do corpo todo. Tal propriedade existe também no cérebro humano e este atua como um holograma interpretativo do Universo Holográfico.

No enfoque do paradigma holográfico, além da focalização de todo, há a percepção intuitiva da rede dinâmica e interligada. Nela eventos específicos e localizados repercutem no todo e vice-versa, sincronismos são inerentes ao funcionamento da realidade, vista pelo modelo holográfico. 

Para os espiritualistas é uma agradável surpresa o que a física quântica está admitindo, e não surpreende, por exemplo, as filosofias espiritualistas e culturas como a indiana, para a qual Maya ou ilusão é a forma pela qual percebemos o mundo, essa percepção é produto da nossa mente, o conhecimento da realidade última transcende a nossas possibilidades de alcance.

Também o filósofo grego Platão, no conhecido mito da caverna diz que o que o homem vê é uma sombra da verdadeira realidade, mera aparência,  projetada pela mente humana nas paredes da caverna. 

O mundo quântico nos aponta as falhas do paradigma científico ao qual estão condicionadas nossas crenças, valores, modos de pensar e aponta para uma nova visão que possa um dia nos aproximar de uma realidade mais fundamental.  

Enquanto a visão da física clássica nos afasta da percepção da integração corpo, mente e espírito, a quântica nos aponta para a necessidade de uma visão integradora da realidade da natureza e do homem, em suas múltiplas dimensões e até mesmo aponta para a hipótese da existência de uma Consciência Universal, como veremos a seguir.

 

A Causação Descendente

  4. A Causação Descendente 

Retomando um ponto importante já apresentado: com base no “experimento da fenda dupla”, os físicos quânticos constataram a existência do fenômeno da causação descendente até mesmo por fonte causal externa ao universo do fenômeno físico. A mente humana foi identificada como sendo a fonte causal externa que, focando o “experimento da fenda dupla” determinou o colapso da onda (realidade potencial) em partícula, realidade imanente (matéria).

Um experimento com dois observadores vindos ao mesmo tempo de direções distintas num cruzamento de ruas, com semáforo, levaram os físicos à formulação da hipótese de que a harmonização das visões dos dois acerca da ocorrência de apenas uma das possíveis leituras do semáforo se dava pela existência de uma fonte harmonizadora que transcende à mente de ambos.

Outra pesquisa no âmbito do corpo humano mostrou que a intercomunicação dentro do cérebro humano se processa a partir de sinapses neurológicas e segundo Harris Walber, o fenômeno não é de natureza química (como outros pesquisadores admitem), mas sim um processo elétrico possibilitado pela abertura da fenda sináptica é ocasionado pela formação de um “túnel quântico” que permite o salto quântico dos estímulos de um neurônio ao outro. Neste caso o fator causador externo do salto quântico não pode ser um específico observador humano, deve ser alguma outra a fonte externa ao sistema cérebro-mente.

Pesquisas feitas pelos físicos L. Bass (australiano) e Fred A. Wolf (norte americano) evidenciaram que, mesmo a nível macroscópico, ocorre a interferência de uma fonte causal externa na ocorrência de fenômenos físico-mentais. Observaram que o funcionamento da inteligência no homem exige, além da ocorrência das sinapses neurológicas entre neurônios contíguos, que o acionamento de um neurônio seja acompanhado pelo acionamento instantâneo de outros que se encontram a distâncias macroscópicas do mesmo.

Ficou evidenciada a presença de um fator causador externo e “não local” capaz de atuar na intercomunicação neuronal a distâncias macroscópicas e capazes de harmonizar instantaneamente a atuação de múltiplas áreas do sistema cérebro-mente (sistema de natureza físico-mental).

Diversas outras experiências mostraram a interconectividade não-local entre mentes de sujeitos distintos, repetidas por pesquisadores em diferentes países. Duas pessoas foram colocadas para meditar em conjunto sobre a ideia: “nós dois somos um”. A seguir cada uma foi separada em câmaras eletromagneticamente isoladas, para garantir o completo isolamento científico da comunicação entre as pessoas. Cada uma foi conectada a sensores elétricos e seu registro cerebral foi acompanhado. Numa das participantes provocaram-se estímulos que foram registrados por um eletroencefalograma, os mesmos estímulos foram observados simultaneamente no eletroencefalograma da outra pessoa. Verificou-se um índice elevado coincidência (superior a 70%), tanto de potencial, como de fase e de amplitude.  O fenômeno foi também considerado de “não localidade” (na terminologia dos físicos[7]) . Testes de controle foram repetidos com pessoas que não realizaram a meditação prévia e a coincidência dos registros cerebrais foi desprezível, confirmando as conclusões do experimento.

Indicações da influência determinante da percepção consciente do observador na natureza da realidade (experiência da fenda dupla) como das experiências de “não localidade” levaram a conclusões que se refletem nas palavras de Goswami (programa Roda Vida-TV Cultura, 2001):

 “A consciência que escolhe e causa o “colapso” da onda de possibilidades não é a consciência individual do observador; em vez disso, é uma consciência cósmica. O observador não causa o “colapso” da onda de possibilidades em um estado habitual de consciência, mas num estado anormal, no qual ele é parte da consciência cósmica.”

 

Diante dessas experiências, muitos dos  físicos quânticos concluíram:

  • Existem fenômenos “não locais” por fator externo ao experimento e externo à interferência consciente do observador humano. Esses fenômenos existem inclusive ao nível macroscópico.
  • Existe de fato comunicação entre mentes, sem interveniência de qualquer veículo de comunicação reconhecido pela ciência e ela não obedece às leis da física, ocorre sem concurso de veículo material nem eletromagnético e não obedece às leis de Einstein, sendo instantânea.
  • A harmonização consciente das mentes das pessoas exerce efeito determinante na comunicação entre elas e na convergência de suas percepções sobre a realidade;
  • Deve haver uma fonte harmonizadora das mentes, que as transcende, possivelmente única.
  • A partir das conclusões anteriores, experimentos acerca de fenômenos transpessoais passaram a receber pelos físicos status potencialmente científicos, dentre eles os de telepatia, percepção à distância, experiências fora do corpo. 

A admissão da existência de causação descendente afasta a visão da física quântica da visão da física clássica em múltiplos sentidos, até mesmo com implicações de natureza tecnológica.

Os físicos clássicos, como já foi dito, vêem a matéria como a única geradora dos fenômenos ao âmbito da física. Para eles, fatores admitidos exógenos, a exemplo do pensamento, vêm do cérebro, o gerador da mente do homem. A mente, o pensamento, a intuição seriam epifenômenos do cérebro. A corrente filosófica funcionalista admite que a mente funciona como um “software” de um computador e o cérebro como o “hardware”. Para estes a consciência do homem é inexistente ou irrelevante. Os materialistas funcionalistas preconizam a construção de maquinas pensantes capazes de desenvolver todas as aptidões humanas (a exemplo das “Turing Machines”)[8].

Para os físicos quânticos a mente não é derivada do cérebro e o sistema cérebro-mente é visto como um “sistema emaranhado” (insolúvel), sua resolubilidade depende da interferência de um fator externo ao sistema. Isso pode, inclusive, indicar a impossibilidade de sua reprodução em máquinas pensantes. Mais adiante trataremos das propriedades do “sistema emaranhado” cérebro-mente.

As reflexões sobre a causação descendente (fonte externa ao fenômeno) levaram a que físicos de opção filosófica monista idealista fossem mais além, admitindo que a mente de um observador seja apenas um instrumento de causação descendente dos fenômenos da realidade. A Consciência Individual é canal de uma consciência de caráter universal. Apenas tal hipótese, segundo os físicos monistas idealistas, oferece uma interpretação consistente de descobertas científicas que permaneciam antes inexplicáveis. 

A Consciência Universal é por eles considerada como ente auto - referente, transcendente à realidade, fonte última da criação e do conhecimento, una, indivisível, integradora da realidade universal.

Goswami nos diz no seu livro (pg 203 do item 1 da bibliogr.) que: “A consciência no homem tem que ser um fenômeno não local “(transcendente) “para que seja possível a ocorrência de fenômenos da mente tais como criatividade, amor, liberdade de opção, percepção extra sensorial, experiência mística, visão expressiva e evolutiva do mundo, compreensão do seu lugar no universo.”  

Ao afirmar tais idéias ele se apóia na filosofia modista idealista. Para Amit Goswami, a Consciência Universal é a “base do Ser” (“Consciousness is the Ground of Being”), é a realidade última, a mente e o corpo são derivados (epifenômenos) da Consciência. 

Pela filosofia Vedanta, mente e corpo são realidades ilusórias (maya). Tal visão é compatível com o que Platão apresentou no mito da caverna, o que vemos é uma sombra do real projetada nas paredes da caverna. A mente filtra o real através de sistemas de representação implícitos, baseados em arquétipos do inconsciente coletivo, o que provoca um reducionismo qualitativo da verdadeira realidade, a rigor inacessível para a mente humana. 

A Consciência Cósmica atua através da Consciência Individual do homem e lhe confere a capacidade de ser co-criador da realidade.

Segundo esta visão filosófica, a Consciência é a única fonte criadora, é criadora e harmonizadora do universo e de todos os níveis vibratórios que constituem o ser humano, a saber: o mental, o emocional ou vital e o físico; estes são autônomos entre si e são sincronizados a cada instante pela Consciência Unitiva, que interfere permanentemente em todos os fenômenos. 

         Uma das pontes entre a psicologia transpessoal e os físicos monistas idealistas é convicção de que a Consciência no homem lhe permite exercer um livre arbítrio e lhe confere a consequente responsabilidade de contribuir na harmonia da vida e da natureza (ver item 5.).        

Cabe lembrar que é propósito da psicologia transpessoal apoiar a expansão da consciência de si no homem com o intuito de torná-lo mais aberto à manifestação mais plena da Consciência Universal, ampliando sua capacidade de atuar como “canal” da Consciência Cósmica na harmonização da vida e da natureza.

 Veremos a seguir uma visão do universo quântico da mente, veremos que é compatível com da psicologia transpessoal.  

O Mundo Quântico da Mente

                               5. O Mundo Quântico da Mente 

A consciência individual é egoica*, por ela a pessoa identifica a si mesma como única e ilusoriamente se percebe como ente separado do universo. Ela é a projeção da Consciência Universal na dimensão individual do homem.

Quando a atenção consciente do homem, num experimento de física quântica, provoca o colapso da onda de probabilidades (realidade potencial) em partícula (realidade imanente), o homem escolhe um resultado para a medição (partícula), mas permanece inconsciente de que de fato fez uma escolha e é inconsciente da sua interdependência em relação ao objeto observado.

É a Consciência Unitiva que atua sobre o sistema cérebro-mente do homem e produz o colapso onda-partícula e a consciência individual interpreta o resultado dessa intervenção, com base no seu sistema de representações que é apenas um mapa limitado e não a própria realidade. A realidade externa parece ser concreta, sólida e independente dele, o que é uma ilusão (maya, nafilosofia Vedanta).

A Consciência Una momentaneamente se identifica com a do sujeito observador, o que provoca nele a percepção de si como diferenciado do objeto observado, lhe dando a sensação de “eu existo” como ente autônomo, ignorando a interdependência em que se encontra.

A ilusão de separatividade dá ao homem o sentido de “ego” *, conceito cunhado por Freud. Percebe-se como separado do objeto observado, do mundo ao redor. Ainda neste texto veremos como o homem evolui no sentido de sair dessa ilusão de separatividade, adquirindo consciência de sua integração num universo interdependente e holográfico (em que as partes são o todo, o todo é as partes).

Segundo Goswami, se não houvesse a intervenção da Consciência, agente externo ao sistema (observador-objeto observado), não haveria colapso da onda em partícula, não haveria medição, pois o sistema cérebro-mente, dual, é parcialmente clássico (mensuralidade é qualidade da física clássica) e parcialmente quântico (capaz de descontinuidade, de salto quântico), mas é um “sistema emaranhado ou entrelaçado”, de resolução lógica impossível.

Um sistema entrelaçado ou emaranhado é sempre paradoxal, está condenado a uma perene retro alimentação, a exemplo da frase “eu sou mentiroso”. Ao buscarmos o significado da frase vemos que o sujeito define o objeto, mas não nos permite uma conclusão, já que o objeto, por sua vez, redefine o sujeito.

Outro exemplo de sistema entrelaçado é o do desenho de M. C. Escher de duas mãos pintando simultaneamente uma à outra. Quem pinta quem? Dentro do quadro o “sujeito” (a 1a mão) recria o objeto (a 2a mão) e este cria o “sujeito”. A solução do paradoxo está fora do sistema, é Escher, o pintor, que pinta a ambas, ele é o sujeito transcendente ao quadro. 

Segundo Goswami, tal fenômeno ocorre também no sistema interativo cérebro-mente. Sem a medição (pelo cérebro), o sistema não existe e sem a percepção atenta (pela mente) também não. A Consciência Una cria o colapso no sistema cérebro-mente, dá a oportunidade da opção (realizada pela mente), do registro (no cérebro) e de sua interpretação (pela mente). A mente interpreta com base nas memórias acumuladas ou então, cria uma nova visão, não condicionada.

Os Objetos da Mente

- Os Objetos da Mente - 

Cientistas quânticos admitem que os “objetos da mente” têm as propriedades dos objetos quânticos. Objetos da mente são os pensamentos e as imagens, aos quais a mente confere significados, sendo estes significados subjetivos. O valor dos objetos da mente é dado pelo significado subjetivo que a mente lhes atribui e tem o padrão comportamental de ondas de probabilidades.

Físicos admitem ser a realidade da mente continua, una, indivisível, holográfica e assim compatível com a percepção da realidade quântica, compatível com aquela atribuída à Consciência Universal, com a qual a mente pode se identificar, através da expansão da auto consciência, especialmente em estados ampliados de consciência, como ocorre em estados meditativos.

Os pensamentos e imagens são experiências interiores, subjetivas, da mente. Tanto nos estados de vigília como nos de sonho os objetos de observação da mente existem e são relevantes.

 

A Consciência Individual como Canal da Consciência Cósmica

A Consciência Individual como Canal da Consciência Cósmica -

 

Examinemos mais detidamente como se dá a intervenção da Consciência Unitiva, criando os colapsos da realidade potencial para a imanente através da mente humana, veremos ainda a consequência disso sobre a Consciência individual.

Cada vez que ocorre uma experiência de colapso no sistema cérebro-mente, um registro de ocorrência acontece e fica impresso no sistema. Uma sucessão de registros vai constituindo a memória. Essa memória vai criando uma predisposição, um enrijecimento no sistema cérebro-mente. Desse modo perante um estimulo novo, com características animicamente semelhantes àqueles registrados na memória, o sistema tende a dar respostas semelhantes.

O conjunto de memórias acumuladas no sistema cérebro mente vai, ao longo do desenvolvimento histórico da criança ao adulto, construir o ente que Freud chamou de ego.

Ego é o ente pelo qual a pessoa identifica a si mesma como única e separada de qualquer outra pessoa e da natureza. Goswami se refere também ao ego comoa imagem que formamos do experienciador aparente de nossos atos, pensamentos e sentimentos no dia a dia” (pg 239 item 1 da bibliografia). Estas memórias criam formas-pensamento e são guardadas no inconsciente individual (identificado por Freud) como também no inconsciente coletivo (identificado por Yung). Neles se encontram inclusive, memórias dolorosas e amedrontadoras que o ego procura reprimir, para que não sejam revividas.

Segundo Goswami (pág. 245)1 ”se o sujeito é condicionado a evitar certos estados mentais, cria-se uma probabilidade esmagadora de que estes jamais sofram colapso, em novas experiências, porém os estados de ansiedade provocados pela restrição frequentemente influenciam, sem causa aparente, a emergência desses conteúdos, em colapsos futuros. O desconhecimento das causas desse comportamento pode levar a patologias corporais e psíquicas, a exemplo das neuroses.” 

Diz Goswami: “Muitas de nossas experiências transpessoais são (também) influenciadas por certos temas reprimidos contidos no inconsciente coletivo...” “... podem também dar origem a patologias”. 

O desenvolvimento interior do homem consiste em libertar-se das limitações que o ego veio construindo nesta vida, consiste numa perene atenção à ilusão de separatividade, numa perene vigilância à propensão a pensamentos, emoções e atos ditados pelos seus registros de memórias passadas.

Goswami entende que a verdadeira ilusão (maya) não é propriamente a realidade do homem e do mundo, e sim a ilusão da separatividade com que o homem percebe a realidade. 

Goswami diz que o desenvolvimento do homem está sintetizado na máxima opto, ergo sum”, o que o caracteriza como ser humano é a capacidade, a determinação e a coragem da escolha, a capacidade meramente intelectiva é insuficiente. Goswami substitui, assim, a máxima “cogito, ergo sum”.

Para optar é preciso conquistar a liberdade interior. Os atos de livre arbítrio só existem se o homem se descondicionar e o processo passa por um processo de obtenção de uma autoconsciência ampliada de si mesmo, de um cultivo de estados de “vazio” de pensamentos e de desejos. Nesses estados a clareza e a atenção se ampliam e as escolhas podem ser descondicionadas e assim, livres.

Quanto maior a tendência do sujeito em ceder ao automatismo das respostas aprendidas, menor é a oportunidade que ele dará à ocorrência de novos insights advindos da interferência da Consciência unitiva em futuras experiências, em futuros colapsos do sistema cérebro-mente.

São estes insights que dão o prazer da criatividade ao homem, a possibilidade do novo, eles transmitem o sentido de unidade com o Universo, de Universalidade, de Amor. 

O homem evolui acessando a Consciência Unitiva, potencialmente compatível com o processo de funcionamento do seu sistema cérebro-mente, no instante em que ele observa a realidade, desde que se abra para novas percepções, o que demanda vitalidade, liberdade interior, desapego de emoções compulsivas de hábitos, tabus, crenças, demanda ainda fé e esperança.

Sua evolução lhe permite atuar como co-criador da harmonia universal.

Goswami é de opinião de que a expansão de autoconsciência individual implica na transformação harmonizadora dos vários “níveis vibratórios” que constituem o ser humano: seu corpo físico, seu “corpo” vital (de natureza psíquico-corporal) e o “corpo” mental. 

Para estimular essa evolução, Goswami preconiza a contribuição da filosofia como da psicologia e do yoga: “a filosofia sem a psicologia e o yoga não dá frutos, a psicologia e o yoga sem a filosofia não têm raízes”. 

A meditação é considerada essencial. Sobre o seu papel na nossa capacitação para exercer o livre arbítrio, Goswami escreve em seu livro (1), na pg 244:

 “Pela meditação ocorre a concentração da atenção no campo de percepção e num dado objeto da mente (objetos da mente são pensamentos e imagens).

 Isso nos permite ser testemunhas dos fenômenos mentais que surgem na nossa percepção, testemunhas do desfile de pensamentos e de sentimentos que emergem, atrelados a condicionamentos anteriores.

A meditação cria um hiato entre o despertar de respostas mentais aqui-agora  e a ânsia de agir de acordo com respostas antigas.

Assim a meditação reforça a capacidade de nosso livre arbítrio no sentido de dizer não a atos condicionados.

 É grande o valor desse esforço, em mudar comportamentos destrutivos usuais.”

 Mais adiante na pg 282 do mesmo livro:

“A meditação é o único método de criatividade interior, ela permite aprender a manter-se em estado de atenção, a praticar o desapego, a agir como testemunha do melodrama contínuo dos padrões de pensamentos”.

Comentários Finais

Comentários Finais

Como demonstrado neste texto, a exploração da mente no âmbito do modelo quântico abre fronteiras para pesquisas científicas de alto interesse para a psicologia transpessoal.

Por outro lado, permite à psicologia transpessoal contribuir para a evolução científica, não só da psicologia e da filosofia, como da física quântica, da neurologia, da biologia e de outros campos científicos. 

O diálogo da ciência, com as filosofias espiritualistas e com a psicologia transpessoal está em curso.

Bibliografia

BIBLIOGRAFIA

(1)   Goswami, Amit et alii: O Universo Auto Consciente como a consciência cria o mundo material; Ed. Rosa dos Tempos, 1998

(2) Goswami, Amit e Maggie: Spirituality a Quantum Integration; Science and Ed. Quick Prints 1997, New Delli 

(3) Wollner, Laiz Moura: Quântica Taoista, Holográfica: a nova percepção da realidade (texto inédito)

(4) Tallbot, Michael: O Universo Holográfico: Ed. Best Seller,  S. Paulo, 1991.

(5) Anotações pessoais de Maristela André, de Seminários do prof. Amit Goswami (cerca de 16 hs de duração cada): Ciência e Espiritualidade, VI Congresso Holístico e Transpessoal Internacional, set/1997 (Águas de Lindóia, S.P.); Congresso Internacional de Física e Espiritualidade, no Vivekananda Kendra Yoga Research Foundation, India, jan/1998; Seminário “ O ser quântico: criatividade e saúde mental ”, em Airuóca, MG, jn/1998.

* Amit Goswami, Ph.D., é professor titular de física quântica do Instituto de Física Teórica da Universidade do Oregon -EUA. É físico nuclear teórico, pioneiro na interpretação idealista da física quântica. Autor dos livros: (1)Quantum Mechanics, (2) Spirituality, a Quantum Integration; (3)Science within Consciousnes; Physics of the Soul: Death an Reincarnation in the Quantum World; (4)Quantum Creativity e livro traduzido para o português: (5) O Universo Auto-Consciente: como a Consciência Cria o Mundo Material. (Ed. Rosa dos Tempos, RJ.,1998).

[1] Item 1 da bibliografia (pg. 99)

* Fenômenos como estes são denominados “não locais”, o que significa que ocorreram sem comunicação (conecção material nem eletromagnética) entre as pessoas e ainda não obedece ao limite temporal da velocidade da luz (são instantâneas).

* Foi realizado um experimento, no qual, inúmeros detectores (contadores geiger) foram espalhados pelas áreas em que o elétron teria probabilidades significativas de surgir como partícula “colapso do elétron”.  Revelou que, num dado instante, apenas um detector registra a sua presença e nesse momento a probabilidade de emergir em outro ponto qualquer se anula imediatamente.

[2] Item 3 da bibliografia

 [3] Bibliografia item 1, (pg 90).

[4] Bibliografia, itens 1 e 2.

[5] Bibliografia item. 3

[6] Bohn, David: “A Totalidade e a Ordem Implicada”, SP, Cultrix, 1992.

[7] Ver conceito de localidade e não localidade na pg. 1 deste texto.

[8] Item 1 da bibliografia

* Sobre o conceito de “ego” e seu papel na consciência individual, ver também o subtítulo – Os Objetos da Mente -