IDENTIDADE, CIDADANIA E INCLUSÃO SOCIAL DE IMIGRANTES NO BRASIL

IDENTIDADE, CIDADANIA E INCLUSÃO SOCIAL DE IMIGRANTES NO BRASIL

-Contribuição de Constelações Sistêmicas-

Maristela de André, 2014

Filhos e de netos de imigrantes que vieram para o Brasil fugindo da miséria, da guerra, da falta de perspectivas, há vários anos tem procurado a Psicoterapia por Constelações Familiares na busca de se fortalecer. São brasileiros por nascimento e também por opção, mas muitos têm baixa autoestima e não se sentem socialmente integrados, alguns se sentem até mesmo apátridas.

 

O relato a seguir, mescla diversos casos, atendidos no Espaço Vila Nova, e não pode ser atribuído a uma específica família:

 

Uma  família vinda do Japão no pós-guerra, por miséria, falta de horizontes e estímulos do governo japonês para que emigrassem. Os emigrantes se sentiram “renegados pela pátria”.  A família eventualmente sofreu perdas traumáticas na longa viagem até o Brasil. Instalou-se aqui, fincou raízes e se estabeleceu, mas no inconsciente familiar o trauma continuou fazendo vítimas, por mortes traumáticas e destinos dolorosos nas duas gerações seguintes, de filhos brasileiros e de netos.

 

Tomamos como exemplo uma cliente, neta de tal família.  Ela sofria sentimentos de baixa autoestima e desvaliaAnsiosa, queria fortalecer a si e também a seus filhos. Temia cobrar deles, inconscientemente, esforços excessivos por medo de fracassar, temia transmitir a sua confusão e dor de se sentir apátrida.

 

Na terapia por Constelações, foi resgatada a amargura da avó japonesa, que veio contra a vontade como emigrante e que, já no Brasil, vivera uma vida dura como viúva precoce, mãe de grande prole. A neta atuou na reconciliação da avó com a pátria japonesa, para que ela pudesse olhar em frente, valorizar a vida, acolher os filhos que teve.

 

A filha dessa japonesa imigrante, primeira geração nascida no Brasil, se sentia como brasileira, mas sofria incomodo e confusão por se sentir vista no país como japonesa. Seu relacionamento com a mãe era difícil, não atendia às expectativas dela, procurou liberar-se das tradições da origem, eventualmente não se casou com um nipônico.  A terapia sistêmica da neta da imigrante, segunda geração brasileira, facilitou que sua mãe, da primeira geração brasileira, se compadecesse da dor da avó japonesa, da exigência extrema da vida dela e a aceitasse com respeito. Percebeu a fortaleza da mãe e pode deixar com ela o destino que a vida lhe reservou. A mãe da cliente, primeira geração brasileira, passou a aceitar com mais leveza a sua origem, a sentir respeito pela pátria japonesa.  Reconheceu a grandeza da pátria japonesa e a grandeza da pátria brasileira.

 

A cliente da terapia por constelações, neta da família japonesa, pode contemplar a saga da família com clareza e compaixão e sentiu gratidão pelas gerações passadas, compreendeu o processo transgeracional que lhe deu a vida, identificou a fortaleza e os recursos internos de que hoje dispõe para construir sua trajetória pessoal.  Resignificou seu vínculo com a mãe, com quem tinha dificuldades, e com a avó, amada por ela. Assumiu com alivio e coragem: “sou brasileira de origem japonesa”. Sentiu-se, então, mais inteira para passar amor e fortaleza aos filhos, à quarta geração de imigrantes. Pôde reconhecer e valorizar sua identidade especial, como membro do campo sutil dos imigrantes e descendentes que, com o que trazem consigo da origem, foram e continuam sendo cidadãos essenciais à construção da identidade da pátria brasileira e co-criadores de seu futuro.