Dançando

Muita de minha esperança está no corpo.

Neste mesmo corpo enrijecido, desarmonioso, envelhecido, que sou eu

Na dança ele se expressa

Com mais verdade, liberdade, energia, do que pela palavra,

O que a mente resiste em viver,

o que a voz não consegue exprimir.

Na dança, meu corpo se expande,

A ansiedade, febre transbordante, poreja.

O medo, a dor, transformam o semblante, o corpo,

Em contorções compulsivas, rudes, penosas.

A sensualidade carente se aceita,

Cria fantasias, arabescos insuspeitados.

Na dança, o olhar se desanuvia, o sorriso se desvela.

Na dança, o corpo me leva ao prazer de crescer,

renascendo do estrume desta apatia castradora.

de me sentir acordada, vibrante, nua, forte, inteira.

de gozar do cansaço bom,

do olhar límpido,

da paz.

Na dança, vivo o encontro fugaz, amoroso,

Com pessoas que alí comungam do mesmo impulso,

de se perceber, se aceitar, se harmonizar, se desenvolver, se curtir,

de dançar a sua música interior.”

(de Maristela de André, 1985, livro: Vísceras, Coração e Mente)