Oficinas de Criatividade na Escola: Contribuindo para o Processo Educacional, na revista Linha Direta / 2007 - por Luana de André Sant'Ana

Matéria publicada na Revista Linha Direta - Junho 2007 - Pgs. 26 e 27

 

O Programa Objetivo de Incentivo ao Talento (POIT) é um projeto educacional extracurricular oferecido pelo Colégio Objetivo a crianças do Fundamental I, II e do Ensino Médio. Programas de educação não formal como este têm por finalidade atuar em conjunto com a educação formal e com a família no desenvolvimento integral das crianças, apoiando-as na construção da identidade, do autoconhecimento, da autonomia, da expressão criativa, das relações interpessoais e sociais, da identificação com a natureza e cuidado com o meio ambiente.

Um diferencial do POIT é ser um programa de inclusão para alunos com habilidades especiais, ou superdotados. O foco neste grupo social tem como fundamento a observação da alta frequência de dificuldades específicas apresentadas por estas crianças. Por exemplo: crianças tidas como "super" em português, podem sofrer por suas dificuldades em artes, crianças "super" em matemática podem se sentir isoladas devido às suas dificuldades no relacionamento social. Por se destacarem muito em certos aspectos, são com frequência cobradas por pais e educadores em diversos âmbitos, podendo gerar nelas uma autocobrança desmedida, baixa autoestima, ansiedade, irritabilidade, hiperatividade, sentindo-se "não pertencentes" e tendendo a excluir-se das relações.

Este artigo visa apresentar o trabalho desenvolvido no ano de 2006 no Curso intitulado "Oficinas de Criatividade", destinado a crianças do primeiro e segundo ano do Ensino Fundamental I. O curso consiste na primeira etapa dos vários módulos do POIT, que se estende até o final do ensino médio. Tem a duração de um ano letivo, as aulas são semanais, de uma hora e quarenta minutos.

Um de nossos objetivos foi favorecer a autoexpressão, a criatividade, a descoberta de novas habilidades e possibilidades de relacionamento através do desenvolvimento sensório-motor, da imaginação criativa, da dramatização, da socialização das atividades.

No início as crianças exploraram suas sensações no contato com argila, tinta, cola, e outros materiais. Desta maneira recuperaram sensações e sentimentos dos primeiros anos de vida, associados a relações afetivas primárias, revivendo e atualizando a experiência do afeto desta etapa.

Outro objetivo pretendido foi de que as crianças se fortalecessem na construção da sua identidade. Nesse sentido, convidamos cada aluno a criar um boneco em massa de biscuit, a dar-lhe um nome e idade e escrever num cartão: quem ele é, o que ele gosta de fazer, de comer, com o que ele gosta de brincar.

Para enriquecer a noção de identidade e ampliar a socialização entre as crianças, promovemos a troca de bonecos entre duas turmas de diferentes unidades do colégio. Cada criança recebeu o boneco de outra desconhecida e respondeu à mensagem que o acompanhava. Enviou para o(a) autor(a) do boneco um comentário sobre sua obra e fez um "novo(a) amigo(a)".

A construção do espaço pessoal e do coletivo deu-se na medida em que cada aluno passou a dedicar-se à criação de um espaço acolhedor para si mesmo, construindo uma casa para o seu boneco (em papelagem). A seguir montamos a cidade, na qual todos tinham um espaço próprio. As crianças decidiram quem seria o vizinho de quem, criaram estórias sobre o relacionamento entre os bonecos, delimitaram terrenos, ruas, praças e parques.

No desenrolar do processo os alunos passaram a notar diferenças interpessoais e a se apropriar de que não são "super" em tudo, e que as diferenças são ricas e fazem parte do humano. No contato com os colegas, foram ensinando, aprendendo e compartilhando uns com os outros. Aos poucos surgiu na turma uma interação mais ativa, sustentável e respeitosa, convergindo para ações conjuntas. Ao final do ano chegaram à construção de um projeto coletivo.

Aos poucos, crianças muito ansiosas foram se acalmando, crianças retraídas passaram a se comunicar, crianças que se consideravam pouco habilidosas passaram a criar e manipular materiais delicados, crianças com baixa autoestima passaram a se valorizar e a compartilhar seus feitos com alegria e leveza. Os resultados se verificaram também nas falas das próprias crianças: "Eu posso ver com as minhas mãos", "Eu sou feliz!", "Às vezes eu me sinto um ET", "Eu tenho emoções!", "Às vezes eu fico com muita raiva", "Nossa, que meleca", "Eu queria que o POIT fosse para sempre", entre tantas outras. Ao final do ano foi realizada uma apresentação e uma exposição visual para os pais, mostrando o processo de trabalho. Foi entregue a cada aluno um CD contendo fotos de todas as aulas, através do qual os pais puderam acompanhar a evolução de seu filho no curso. Este programa está sendo oferecido a novas turmas do Colégio Objetivo durante o ano de 2007.

Luana de André Sant'Ana

Psicóloga Clínica e Professora do POIT

Bibliografia

1 - CUPERTINO, Christina M. B. Criação e formação: fenomenologia de uma oficina. São Paulo: Arte e Ciência, 2001.

2 - MILLER, Alice. O drama da criança bem dotada. 2ª edição. São Paulo: Summus. 1997.

3 - HOLM, Anna Marie. Fazer e pensar arte. São Paulo: Museu de Arte Moderna de São Paulo, 2005.